Engraçado como objetos, palavras, comidas, nomes, cheiros, nos fazem lembrar de momentos da nossa vida...
Por exemplo, quando penso em jaboticaba lembro da geléia que minha vó fazia e isso me remete imediatamente aos cafés da manhã de quando eu morei com ela no sítio. Eu chegava na mesa e estava tudo pronto: os pães cortados em pedacinhos com a manteiga embaixo e a geléia passada por cima, às vezes era só manteiga mas quando tinha a geléia, nossa, era muito bom...e essa lembrança me faz ser super agradecida à minha vó, pelo seu cuidado e dedicação.
Queijadinha já me traz dona Terezinha à cabeça. Ela era mãe do Dedé, que foi nosso vizinho de apartamento do prédio da Tibiriçá. Moramos lá quando eu tinha uns 14, 15 anos, época em que eu achava as pessoas ridículas, chatas e sem noção, sem saber que a mais chata e sem noção era eu, que usava roupas pretas no auge dos 50° de Ribeirão Preto. Dedé era nosso vizinho de porta e devia ter uns 21 anos na época. Era metaleiro, cabeludo e tinha amigos metaleiros e cabeludos. Eu achava ele o máximo, mas era apaixonada por seu primo Juliano e tinha uma simpatia por seu amigo Daniel, o "Urso", que era gente boa e que carregava o Paulinho nas costas fingindo ser o macaquinho do Donkey Kong. A família do Dedé era de Monte Azul e um dia fomos todos passar o fim de semana na casa da mãe dele. Foi quando experimentei a melhor queijadinha de todos os tempos, até hoje.
A cor azul me faz lembrar de uma roupinha que eu tinha quando era bem pequena, e esse conjuntinho azul turquesa me leva à Peruíbe no auge dos meus 5 de idade. Íamos eu, minha mãe e meu pai pra praia, quase sempre. E um dia acordei no quarto de praia e quis colocar essa roupa pra tomar café da manhã. Peruíbe me lembra a música "Podres Poderes" do Caetano. Estava com meu pai a caminho da praia e ela começou a tocar na rua, alto, e eu adorei. Perguntei que música era e de quem, e ele me respondeu todo orgulhoso. Até hoje é uma das únicas músicas que gosto do Caetano.
Jatobá é um fruta muito esquisita. Verde e com um gosto péssimo. No sítio da minha vó tinha um pé de jatobá e eu e a Regiane comíamos desesperadamente aquilo, só pra ver os dentes cheios daquela coisa verde. Eu fingia que estava me transformando no Hulk. Isso me faz lembrar que o sítio da minha vó fez parte quase absoluta da minha infância.
A jatobeira (nem sei como chama) ficava na parte debaixo do sítio, ao lado da piscina. Uma piscina diferente das de casa normal. Ela era grande, de cimento, sempre quase verde e tinha formato de feijão. A piscina me faz lembrar do Wando, um namorado que minha tia Marta teve que foi meu primeiro grande amor platônico. Nessa época minha tia ainda trabalhava com teatro em São Paulo e o Wando também era ator, aliás, ainda é. Ele fazia parte de um grupo chamado XPTO, que é teatro de bonecos gigantes. Toda vez que ia a São Paulo, assistia às peças do grupo que estavam em cartaz. Pra mim, aquilo tudo era muito mágico. E isso me faz lembrar o porque escolhi fazer isso pro resto da minha vida. Me faz lembrar que o Wando teve grande, senão, total influência pra essa minha escolha. Quando ele ia pro sítio, pra mim, era como estar ao lado de um grande artista (que ele era e até hoje é). Eu ganhava o dia só de vê-lo pular na piscina, com cambalhotas.
Essa piscina também me faz lembrar o tanto que meu vô era festeiro, o tanto que ele me amava e o tanto que foi triste vê-lo anos sem poder falar, sem poder andar e sem poder reclamar do barulho de manhã. O galaxy verde enoooorme , que ele cuidava tanto, e tudo o que aquele carro representava. As viagens de 7 km que duravam horas por causa das paradas para o cafezinho. A cada xícara de café , uma bala ou qualquer coisa pra mim e pro Paulinho. Pra minha vó que não era muito divertido, porque depois haja farelo de biscoito de polvilho pra tirar do banco do carro.
Piano me faz lembrar duas coisas: A primeira são as aulas de canto que eu assistia minha tia dar quando eu ia pra São Paulo. Eram hooooras de escalas. E eu assistia pacientemente tudo, não vendo a hora daquilo acabar. Só gostava quando um dos alunos cantava uma música muito bonita, que me fazia parar de divagar por uns instantes. Era uma ópera famosa que eu reconheço até hoje, mas nunca soube o nome.
A outra lembrança que tenho é da minha mãe tocando "Mercado Persa". Eu amava essa música e pedia pra ela tocar umas 367 vezes. Minha mãe tocava muito bem. Lembro dela tocando em nosso quarto, na época em que morávamos na Cesário Motta. Essa rua faz eu arrancar da minha memória os melhores e piores momentos da minha vida. Me faz lembrar do Fábio, minha primeira paixão. O menino era um peste e vivia fazendo merda, e eu achava os dentes dele, que eram totalmente pra frente, lindos. Quando ele chegava me dava vontade de me esconder e fugir, e hoje ele é casado, tem filhos e não ficou bonito como era quando criança. Essa rua me faz lembrar da minha vó. Tem uma cena dela que nunca tirei da minha cabeça. Eu devia ser bem pequena porque morávamos na Garibaldi ainda. Lembro dela linda, com um vestido preto com paetês, pronta pra sair. Muito linda e alegre, como ela sempre foi. Prefiro esquecer a época em que foi escrava de um filho doente, sociopata e dependente químico. Tenho muita mágoa guardada na Cesário Motta, mas foi quando descobri que a vida não é feita de jatobás e piscinas em forma de feijão. Foi quando minha mãe, a pessoa que mais admiro apesar de ser a que mais brigo também, me mostrou que se tá tudo uma bosta, a gente ainda tem a chance de escutar uma música no piano ou dançar com o Prince, e era o que fazíamos quando ficávamos de saco cheio do inferno que virava nossa casa quando anoitecia. Esse inferno me faz lembrar que um dia o Paulinho desapareceu no meio de uma gritaria violenta do meu tio. Procuramos ele na rua inteira, chamamos vizinhos, foi um "fuá". Achamos ele debaixo da cama, todo encolhido e morrendo de medo...foi triste e eu fiquei muito puta...Isso me faz pensar que, talvez, seja por isso que tento protegê-lo de tudo até hoje.
Meu cd do Red Hot Chilli Peppers me leva pra sétima séria de novo, porque foi nessa época que o ganhei, em uma amigo secreto da turma. Ginásio no COC. Escola estilo americano total. Tinha as bonitas, lindas e loiras, os porra-loca e os CDF's. Eu era uma cdf meio porra loca de meia tigela que paquerava o Maranhão, que era o cara mais lindo da escola e que namorava a Thaís, a mais desejada e que eu morria de inveja. Mas eu também era caidinha por um carinha cabeludo, magrinho, quietão, que usava camiseta do Iron...e isso me faz lembrar que sempre fui meio contraditória.
Sétima séria foi ano em que fumei maconha pela primeira vez. 15 anos eu tinha e estava na casa da Marília. Estávamos eu, ela e a Cy no quarto esperando os namorados delas. Fumei e achei aquilo uma merda....parecia que nada tava acontecendo até o momento em que me vi na grade da janela vendo tudo em câmera lenta, achando que tinha se passado 1 hora quando só passara 2 minutos. Os namorados delas chegaram e isso me faz lembrar que eu sempre ficava de vela.
A casa da Marília me lembra meu primeiro beijo.
Foi numa festa e um skatista lindo e sardento me beijou depois de um tempo de conversa.
Foi um dos melhores beijos da minha vida, de verdade.
Eu nunca mais o vi, meio que fugi. Uma amiga na época, a Laila, disse que ele queria me ver de novo mas eu não quis. Isso, me faz lembrar que tem coisas que eu não entendo até hoje porque fiz.
Beijo me faz lembrar umas meninas bem idiotas que conheci em Caravelas quando fui na casa do meu pai, recém mudado. Elas eram filhas de um amigo dele e eram paulistanas. Naquele tempo já idealizava São Paulo como o melhor lugar pra se morar. Nunca conheci paulistanos arrogantes, elas foram as únicas. Eu tinha 13 anos e não tinha beijado na boca (isso me lembra o quanto fui meio atrasada minha vida inteira), e elas, pelo que diziam, já tinham feito o serviço completo e falavam disso O DIA INTEIRO, e não estou exagerando. Uma tinha a mesma idade que eu e outra era dois anos mais velha. Super experientes. Na verdade eram até demais, e isso me assustou um pouco na época. Contavam histórias de amor e sexo em detalhes, e eu, pensava que nunca tinha feito nada daquilo. Não sei até que ponto tudo aquilo era verdade ou até onde elas queriam me impressionar. Na época isso me incomodou muito, hoje acho uma besteira e não me arrependo de não ter dado pra 20 carinhas com 13 anos de idade.
Essa época dos meus 13, 14 anos, me transporta pro momento em que comecei a fazer aulas de teatro no COC. Da minha descoberta de um mundo oculto até então. Lembro da Lídia com seus livros do São Cipriano. Lembro de quando tomei vinho pela primeira vez. Do Guilherme, o Barata, do Júlio, da Cyntia, da Fernanda Nagassaki que tinha uma mãe que não gostava de mim, do professor Norberto que era bom mas não sabia ensinar e que me faz lembrar da professora Norma do Objetivo de Araraquara que conseguiu que eu tirasse o primeiro e único 10 em Matemática da minha vida, e aí eu ainda tinha 11 anos . Lembro de quando vi Christiane F. e o quanto fiquei chocada.... A lista é interminável porque todos os lugares, nomes, capítulos, são interligados...
Fico pensando se daqui 20 anos o que vivo hoje será lembrado através de uma flor, de um cheiro ou de um nome, e isso me faz lembrar que quando vivi todos esses momentos não sabia que me lembraria anos depois e, muito menos, o quê ou quem me levaria a eles....E isso me faz ter certeza de que eu sou hoje uma junção de cada momento desse e de outros tantos que vivi...As lembranças são nossos álibis, que nos fazem lembrar de quem somos...Isso é história e não tem fim e "não tem vaia, não"...